Milena e Escola

Quem conhece minha linda menina jamais imagina o quanto sua beleza esconde uma vida de grandes batalhas. São apenas seis anos de vida e uma vasta experiência escolar!

Milena tem autismo. Como foi descoberto precocemente, quando ela ainda contava com oito para nove meses de vida, apresenta atualmente um grau muito leve do transtorno, mas ainda assim, tem o jeito diferente de ser tão característico das pessoas enquadradas no chamado espectro do autismo.

Quando tinha dezoito meses de vida, o psicólogo que nos orientava sugeriu a inserção em uma escola de educação infantil para que ela socializasse, aprendesse com outras crianças a interagir. Muito mais propensa a se aproximar dos adultos, minha pequena garota se mostrava carinhosa com os grandes, ressabiada com seus pares de idade. Apesar de não fugir da convivência ficava à margem das brincadeiras, mas nunca apresentou comportamentos inadequados que nos trouxesse grandes transtornos e os relatos desta escola destacava aquilo em que ela se diferenciava, os marcos do desenvolvimento ainda não alcançados. Nosso foco era outro, comemorávamos cada pequena conquista e era cada pequena vitória que nos sinalizava um futuro promissor.

Após oito meses nesta primeira escola, a mudança para o Rio de Janeiro e após intensa pesquisa, escolhemos uma escola com abordagem metodológica montessoriana – assim diziam – que no momento nos pareceu bastante adequada. Nesta escola ela não participava de forma integrada, apresentou progressos na interação com os colegas, mas chorava para não ficar na escola e quando chegou no final do ano, a direção alegou faltar vagas para que minha filha permanecesse ali.

Segundo eles, o número maior de alunos não seria favorável, pois ela não iria receber a atenção devida.

Mudamos assim de escola e ela foi muito bem aceita pela equipe, colegas e acompanhante da escola nova. Mas outra vez mudamos de cidade e outra vez minha filha teve que se adaptar a uma escola diferente, a quarta em quatro anos.

Desta vez, os relatos dos seus coleguinhas sugeriam que sua permanência em sala era reduzida, “tia, ela não tem uma sala, ela anda o tempo todo de sala em sala” me disse espontaneamente uma coleguinha, certa vez.

Ao final do ano a escola me pediu que aguardasse uma reunião de equipe para a decisão do programa escolar de Milena. Quando finalmente aconteceu a reunião, a escola informou que o processo de rematrícula havia se encerrado e as vagas haviam sido preenchidas! Mais uma vez, de forma velada, minha filha foi expulsa de uma escola que se diz inclusiva. Mas, na verdade, é mais uma escola despreparada em lidar com as dificuldades de aprendizagem decorrentes de um quadro de autismo.

Esta época foi a mais difícil para mim que, além de mãe, sou pedagoga. Questionei muito a inclusão e a capacidade da escola atual em acolher e trabalhar com a diferença não apenas do aluno especial, mas com toda a diversidade de seu corpo discente. O padrão uniformizador de nossa escola atual, se mostrou naquele momento em particular uma forma de violentar a diversidade natural do ser humano ali em formação.

 

Hoje, pela primeira vez, minha filha está pelo segundo ano consecutivo na mesma escola. Embora seja acompanhada por uma estudante de psicologia que lhe atende de forma individual, é tratada com respeito pelos colegas e pela equipe. É conhecida em toda a escola, pois é a única aluna “diferente”. A direção da escola se interessou por acolhê-la, mas salientou que não tinham experiência com os “especiais”. Ainda assim, é de longe a melhor estrutura que experimentamos. Ela é respeitada como é e não é paparicada ou vista como alguém incapaz.

As dificuldades são diárias, Milena está inserida na turma equivalente à sua idade, mas enquanto todos os seus coleguinhas lêem frases e iniciam a grafia na forma cursiva, ela ainda faz apenas rabiscos e, só agora, começa a reconhecer as primeiras letras.

A carga de terapias de apoio é intensa. Programa com psicólogos baseado na terapia comportamental, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagoga, música, natação são atividades que trabalham atenção, motricidade, aprendizagem, comunicação.

Temos um longo percurso à nossa frente, esbarramos em muitos obstáculos, mas nossa filha não desiste. Com uma fala que somente se desenvolveu após os quatro anos e que só agora permite sua comunicação com o mundo, ela nos mostra que está atenta a tudo, que é sensível e, acima de tudo, que deseja se integrar ao mundo.

Esperamos que ela encontre as portas da escola abertas para suas especificidades e que esta experiência educativa possa ser ampliada a outras crianças que neste momento se encontram reclusas em suas casas por serem diferentes e por que não dizer, fascinantes.

 Relato de Fausta Cristina de Pádua Reis
Mãe da Milena – 6,4 anos
Uberlândia/MG
BLOG: www.mundodami.zip.net